Perimenopausa, Menopausa e Incontinência Urinária: O Que os Números Dizem

Se está na perimenopausa ou na menopausa e tem notado perdas de urina que antes não existiam — ao tossir, ao rir, a caminho da casa de banho — não é imaginação, e está longe de ser a única. Esta é uma das mudanças mais comuns (e mais silenciadas) desta fase da vida, com uma explicação hormonal e fisiológica muito concreta.

Neste artigo reunimos os dados e estatísticas mais recentes sobre incontinência urinária na perimenopausa e na menopausa, em Portugal e na Europa, e explicamos porque acontece — e o que pode ajudar.

O que muda no corpo nesta fase

A perimenopausa é o período de transição que antecede a menopausa, durante o qual os níveis de estrogénio começam a oscilar e a diminuir gradualmente. A menopausa propriamente dita é confirmada quando passam 12 meses consecutivos sem menstruação, ocorrendo em média por volta dos 50-51 anos.

O estrogénio não afeta apenas o ciclo menstrual: a uretra, a bexiga e os músculos do pavimento pélvico têm recetores de estrogénio e dependem desta hormona para manter a sua elasticidade, espessura e força. Quando os níveis de estrogénio descem, estes tecidos tornam-se mais finos e menos elásticos — um processo que contribui diretamente para o aparecimento ou agravamento da incontinência urinária.

Os números: o que dizem os estudos

A incontinência urinária associada à menopausa não é um caso raro nem um exagero — os dados de estudos clínicos e inquéritos populacionais em Portugal e na Europa mostram uma realidade muito comum:

21,4%  é a prevalência de incontinência urinária nas mulheres portuguesas com mais de 40 anos (população não institucionalizada), segundo o estudo epidemiológico de Correia et al., publicado no International Urogynecology Journal — quase três vezes superior à prevalência encontrada nos homens (7,6%) no mesmo estudo.

35%  da população portuguesa com mais de 60 anos vive com incontinência urinária, uma prevalência que sobe com a idade — face a 20% na população acima dos 40 anos, segundo dados clínicos publicados pela Unidade Local de Saúde do Tâmega e Sousa.

3 para 1  é a proporção de mulheres afetadas por cada homem, entre os 45 e os 60 anos, segundo a mesma fonte clínica.

38% a 55%  das mulheres com mais de 60 anos apresentam incontinência urinária, de acordo com o guia clínico da European Menopause and Andropause Society (EMAS), publicado na revista Maturitas.

~3x mais  é o risco de incontinência urinária em mulheres na menopausa, comparativamente com mulheres que ainda não a atingiram, segundo estudos de prevalência internacionais.

4,5%  foi a percentagem de portugueses com incontinência urinária que alguma vez recebeu um diagnóstico médico formal, segundo o mesmo estudo publicado no International Urogynecology Journal — um sinal claro de quão pouco este tema é levado à consulta, apesar da sua elevada prevalência.

Estes números mostram duas coisas ao mesmo tempo: que a incontinência urinária nesta fase da vida é extremamente comum, e que continua a ser um tema silenciado por vergonha ou por se assumir, incorretamente, que “não há nada a fazer”.

Porque é que a perimenopausa e a menopausa aumentam o risco

Vários fatores combinam-se nesta fase da vida para explicar o aumento da incontinência urinária:

      Queda de estrogénio — enfraquece e adelgaça os tecidos da uretra, bexiga e vagina

      Enfraquecimento do pavimento pélvico — agravado, em muitos casos, por gravidezes e partos anteriores

      Aumento de peso — comum nesta fase, o que acresce pressão sobre a bexiga

      Atrofia vulvovaginal — afeta quase metade das mulheres pós-menopáusicas e está associada a maior urgência urinária

      Alterações no colagénio — reduzem a sustentação dos órgãos pélvicos com o avançar da idade

 

O que pode realmente ajudar

A boa notícia é que a incontinência urinária associada à menopausa tem tratamento e gestão eficazes. O guia clínico da EMAS recomenda, como primeira linha de abordagem:

      Exercícios de fortalecimento do pavimento pélvico (exercícios de Kegel), com evidência sólida de eficácia

      Reeducação vesical e ajustes de hábitos no dia a dia

      Avaliação médica para identificar o tipo de incontinência e adequar o tratamento

      Em casos indicados, terapêutica hormonal local, sempre sob orientação médica

 

Segundo a Sociedade Portuguesa de Ginecologia, a taxa de cura ou melhoria significativa da incontinência urinária é elevada quando há acompanhamento adequado — por isso vale sempre a pena procurar ajuda médica, em vez de assumir que “é assim que vai ser a partir de agora”.

Viver esta fase com mais conforto e confiança

Enquanto trabalha o tratamento com o seu médico ou fisioterapeuta do pavimento pélvico, ter a proteção certa no dia a dia faz toda a diferença — para continuar a fazer exercício, a dormir descansada e a viver sem estar constantemente a pensar na proximidade de uma casa de banho.

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Nota: Este artigo tem caráter meramente informativo e não substitui uma consulta médica. Perante sintomas de incontinência urinária, recomendamos sempre que consulte um profissional de saúde para um diagnóstico e acompanhamento adequados.

Fontes

Correia S, Dinis P, Rolo F, Lunet N. “Prevalence, treatment and known risk factors of urinary incontinence and overactive bladder in the non-institutionalized Portuguese population.” International Urogynecology Journal, 2009;20(12):1481-9

Unidade Local de Saúde do Tâmega e Sousa — dados clínicos sobre incontinência urinária em Portugal

Sociedade Portuguesa de Ginecologia (SPG) — dados sobre prevalência de incontinência urinária

European Menopause and Andropause Society (EMAS) — Management of urinary incontinence in postmenopausal women: An EMAS clinical guide, Maturitas, 2020

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